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Investigação aponta que dono do Banco Master teve acesso a documentos sigilosos do MPF antes de mandado de prisão

Quatro meses antes de se tornar alvo de um mandado de prisão da Justiça Federal de Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, teve acesso a procedimentos sigilosos que tramitavam no Ministério Público Federal (MPF). Entre os documentos estavam investigações relacionadas a possíveis irregularidades na negociação envolvendo a venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB).

De acordo com mensagens obtidas pelo jornal O Globo, os arquivos foram enviados em 24 de julho de 2025 por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. O material foi localizado no celular apreendido pela Polícia Federal após a primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, quando ele tentava embarcar para Dubai com escala em Malta.

Nos registros, Mourão encaminha três documentos em formato PDF contendo investigações sigilosas da Procuradoria da República no Distrito Federal. Dois deles tratavam diretamente da negociação entre o Banco Master e o BRB. O terceiro documento apontava suspeitas de que um triplex de luxo em São Paulo, avaliado em cerca de R$ 60 milhões, teria sido usado como pagamento de propina na operação.

Essa última investigação estava em estágio inicial até que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, determinou em dezembro do ano passado o envio de apurações relacionadas ao caso para análise da Corte.

Monitoramento e buscas por informações

Investigadores apontam que Vorcaro e aliados realizavam buscas por procedimentos sigilosos utilizando palavras-chave como “Banco Master”, “Vorcaro” e “Nelson Tanure” — este último citado pela Polícia Federal como possível sócio oculto da instituição financeira.

No período em que os documentos foram compartilhados, em julho de 2025, o Banco Central do Brasil já havia identificado dificuldades do Banco Master para captar recursos e cumprir compromissos financeiros. O órgão chegou a alertar sobre o risco de adoção de medidas prudenciais preventivas.

Meses antes, em abril daquele ano, o Banco Central notificou a instituição afirmando que as medidas adotadas até então não tinham sido suficientes para reduzir o risco de liquidez do conglomerado financeiro.

Irregularidades apontadas pelo TCU

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) também identificou “graves irregularidades” nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB. O relatório aponta o uso de artifícios contábeis com o objetivo de ocultar a real situação financeira do banco.

Segundo o tribunal, havia grande volume de operações suspeitas e sem comprovação financeira, realizadas em desacordo com normas de boa gestão.

Luiz Phillipi Machado Moraes Mourão, o Sicário. Foto: reprodução

Suspeita de vazamento de decisão judicial

A Polícia Federal também investiga a possibilidade de vazamento da ordem de prisão de Vorcaro. Um dos indícios citados é um pedido protocolado pela defesa do banqueiro na Justiça Federal apenas minutos após a assinatura da decisão judicial.

O documento foi apresentado às 15h47 do dia 17 de novembro de 2025, apenas 18 minutos depois de o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, assinar o mandado de prisão às 15h29.

Acesso ilegal a sistemas

Em decisão que autorizou a terceira fase da operação, o ministro do STF André Mendonça afirmou que foram identificados indícios de que Vorcaro teve acesso antecipado a informações sobre diligências investigativas.

Segundo o magistrado, Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de segurança e investigação.

As apurações indicam que esses acessos ocorreram por meio do uso de credenciais funcionais de terceiros, permitindo a obtenção de informações protegidas por sigilo institucional. De acordo com a Polícia Federal, o grupo teria acessado sistemas da própria corporação, do MPF e até de organismos internacionais como o Federal Bureau of Investigation (FBI) e a Interpol.

Ataques cibernéticos e morte de operador

A investigação também identificou o uso de ataques de “spearfishing” contra servidores do Ministério Público Federal. O método consiste no envio de páginas falsas de atualização de senha para enganar usuários e obter acesso a sistemas protegidos.

Segundo fontes da investigação, Mourão teria criado um ambiente digital que imitava o sistema utilizado por servidores da Procuradoria-Geral da República. Após receberem e-mails fraudulentos, alguns funcionários teriam inserido suas credenciais, permitindo acesso indevido a procedimentos sigilosos ligados ao caso.

Com histórico de fraudes digitais e extensa ficha criminal, Mourão era considerado operador de Vorcaro e recebia cerca de R$ 1 milhão por mês do banqueiro. Ele morreu após tentar suicídio dentro da superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.

Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não comentará conteúdos oriundos de vazamentos ilegais de material sigiloso. Em nota, os advogados disseram que os fatos já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal.

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